Mendigos de Amor

Implorando carinho, atenção, mimos... parecemos os gatos quando passam por nós e nos roubam uma festinha roçando-se nas nossa pernas ou braços. A necessidade de contato é tanta que, se o dono não oferece, eles vão buscar o seu mimo.


E nós seres humanos, privados de contactos próximos, como gerimos esta prolongada ausência sem danos no preenchimento das nossas necessiadades básicas, sem desenvolver carências de amor, graves?


Luís Vaz de Camões que viveu entre 1524 e 1580, escreveu o célebre soneto que ainda hoje é a nossa definição nacional de AMOR:


Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.


É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.


É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.


Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor


Será que é uma definição? Ou apenas uma construção de bonitas palavras que, como a letra de uma música se complementam e soam tão bem?


Mas afinal o que é para ti o amor?


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O amor é (con)viver com o outro co-construindo uma realidade a que costumamos chamar "a nossa vida" e nessa realidade dar espaço à coexistência de outro ser humano, com vontades, atitudes e comportamentos únicos. Nesse espaço co-criar uma vida, em comum, diferente para cada um, mas sentida como gratificante, sincera e construtora. É tão complicado e dissonante que subescrevo plenamente as palavras do grande poeta Luís Vaz de Camões.


As carências de amor surgem quando nos confinamos a viver na nossa bolha, sem partilhar palavras ou afetos e esvaziamos da nossa vida a vida do outro. Quando o outro deixa de interferir, quando já não se comunica e não se partilha, quando não se negoceia e fazem cedências, quando não nos ajustamos ao outro ou não nos colocamos no seu lugar, quando se sente a ilusão de que o amor próprio e uma elevada auto-estima são o suficiente e o ideal para vivermos bem connosco, então o amor deixa de existir, assim como todo o contentamento descontente que ele nos provoca.


 


 

Comentários

  1. Adorei, parabéns por esta reflexão concordei com as suas ideias! Amor... é tudo parecer novo e belo aos nossos olhos

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  2. Obrigada Sandra pelo seu comentário, também gosto da ideia de novo e belo... de sentir o amor e de o deixar entrar e acontecer nas nossa vidas, todos os dias.

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