Atlas com o mundo às costas
Foi com a minha amiga Anabela G. que conheci o Atlas, um Titã grego, condenado a carregar o mundo às costas.

A Anabela G. é minha amiga porque me escolheu para ser sua amiga, de entre todas as meninas da nossa sala, fui a eleita para participar nas suas brincadeiras.
A Anabela G. é filha única, os seus pais trabalhavam por turnos e, por isso, entre as horas do dia em que estavam a trabalhar e as horas do dia em que estavam a descansar, a Anabela G. ficava muito tempo sozinha.
A Anabela tinha algo que eu adorava. O seu cabelo muito comprido.
A minha mãe nunca me deixava crescer assim tanto o cabelo. Dava muito trabalho e algum sofrimento, a lavar e ainda mais a pentear e desembaraçar.
A mãe da Anabela contornava esses obstáculos fazendo-lhe tranças. Amarrava o cabelo da Anabela, como se o quisesse domar, à semelhança do que gostaria de fazer ao espírito da filha, que era muito sonhador e indomável. A Anabela parecia dócil, tranquila, mas interiormente tinha uma grande sede de aventura.
No seu quarto não havia grandes distrações. Apenas um summier de 140cm por 200cm, sobre o qual se encontrava colocado um colchão alto, fazendo lembrar a cama da princesa ervilha.

Havia também uma cómoda com roupa e alguns adereços. No seu quarto não havia bonecos nem jogos, muito menos telefones, computadores, e todas as coisas com que atualmente as crianças de entretém. Quando eu ía a casa da Anabela ficávamos por alguns minutos a olhar uma para a outra a tentar decidir o que fazer. Depois de uns pulos em cima da cama, a Anabela ia buscar umas revistas, penso que o nome seja "O amiguinho" revistas essas que eram muito interessantes, na minha perspetiva, tinham adivinhas, anedotas, curiosidades, charadas, palavras cruzadas, teatros. Por vezes eu ficava ali a ler e a rir-me sozinha, e convidava a Anabela para uma pequena representação. Também brincávamos na cozinha preparando o lanche que grande parte das vezes era feito com bolacha maria esmagada e fruta. E brincávamos na sala, víamos os programas, extremamente enfadonhos, da tarde e aproveitávamos para limpar o pó, era aí que eu limpava o pó ao mundo e ao Titã Atlas que o carregava e enquanto lhe limpava o pó, questionava-me sobre a sua posição tão desconfortável.
A Anabela também vinha a minha casa e aí ficava horas perdida no meio dos meus brinquedos. A dada altura ela já não me ligava nenhuma ficava apenas a dar vida às suas histórias interiores, movimentando os meus bonecos. E a Anabela tinha muitas histórias guardadas, contadas pelos avós e pelos pais, normalmente relacionadas com doenças, coisas ocultas e maldades, era um imaginário muito povoado pelas preocupações dos adultos, algo que ela ainda não entendia muito bem mas que a preocupava e até assustava tornando-a uma menina fechada, pouco sorridente. Ela gostava tanto de mim que raramente partilhava as suas preocupações, como se não as quisesse colocar também em mim.
Quando a minha mãe chegava, começava logo a questionar se já não seriam horas de a Anabela ir para a sua casa. Mas ela, estava tão entretida, que não ouvia, ou fazia de conta que não ouvia, e ficava mais um pouco e mais um pouco até que a minha mãe, de jantar quase pronto, colocava um ponto final na brincadeira e quase que a levava até à porta.
Eu ficava com o quarto todo desarrumado e, sem paciência para arrumar sozinha, empurrava os brinquedos para debaixo da cama!
O Carnaval e a Anabela estão muito ligados no meu imaginário, pois costumávamos vestir-mo-nos e pintar-mo-nos com saias rodadas, aventais bordados, lenços na cabeça, colares ao pescoço, brincos nas orelhas e chinelas no pé. Parecíamos umas galegas desmazeladas. Na rua soltávamos as bolinhas e as serpentinas e andávamos com as nossa bisnagas cheias de água para nos protegermos dos outros mascarados. Fugíamos de levar com um ovo na cabeça, algo que me aconteceu apenas uma vez precisamente quando ia a caminho da casa da Anabela. Quando lá cheguei, toda suja, e a fazer a digestão (na altura as duas horas a seguir ao almoço eram sagradas, nem pensar tomar banho muito menos lavar a cabeça, significava perigo de morte) pedi-lhe então ajuda para me limpar sem lavar a cabeça. A Anabela, muito pacientemente e a esforçar-se imenso por não me puxar o cabelo lá foi tirando cascas, clara e gema com uma esponja humedecida em água e vinagre.
Senti toda a sua amizade e preocupação comigo nesse gesto que guardo aqui.

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