Recordar é viver
E em tempo de confinamento é como se vivessemos de recordações. É como se estivéssemos a usar a nossa conta poupança, indo lá sistematicamente buscar as recordações de dias felizes, para dar alimento aos nossos dias, que padecem da triste sina de se estarem a tornar incrivelmente monótonos e limitados.
Na minha conta poupança de memórias felizes encontro os meus amigos.
A minha primeira amiga, Ana T. permitiu-me experiências simples mas marcantes. A caminho da casa dela, onde iria passar o dia, e a noite, passei pela primeira vez por cima de um comboio.

Até aí o meu imaginário de comboios era relacionado com o grande perigo que existia em cada passagem de nível, muitas sem guarda e algumas com guarda, mas também elas causadoras de acidentes fatais. Eram frequentes as mortes de pessoas que eram colhidas pelo comboio, porque atravessavam a linha a pé ou num veículo, a pedais, a motor ou puxado por animais. Os comboios eram autênticas ceifeiras de vidas. E a frase "ficou debaixo de um comboio" era tão frequente que me fez sentir poderosa, ver que o comboio passava por debaixo dos meus pés e era eu que estava em cima do comboio.
A evolução permitiu reduzir para quase nada as passagens de nível sem guarda, ainda assim em pleno século XXI talvez ainda existam algumas, quase desertas de comboios e de gentes, mas ainda existem.
A Ana T. também me fez descobrir o arrepiante mundo das histórias assustadoras. Já na cama de luzes apagadas ela contava histórias de bruxas. Bruxas que se transformavam em moscas e que vinham comer os restos do nosso jantar. Moscas que pousavam na parede do nosso quarto e nos vigiavam e ficavam ali a observar-nos com o intuito de atormentar a nossa paz, com o intuito de nos desinquietarem e de nos provocarem medo.
Para melhor sentir a presença dessas bruxas/moscas a Ana imitava o zumbido de uma mosca a voar, e eu, atraída pelo perigo não a mandava calar, mas escondia a cabeça por debaixo dos lençóis, para, pelo menos, evitar que a mosca/bruxa pousasse em mim.
A Ana T. tinha muito talento para contar histórias fantásticas, seria já um Tim Burton em potência. Ela contava essas histórias oralmente e por escrito, recorrendo a desenhos.

Fazia vários desenhos, em diversos papéis como se cada um fosse um capítulo da história. Depois juntava-os todos, colocava num envelope, que ficava bem gordinho, e enviava pelo correio. A sensação de abrir uma carta tão cheia, com tantos desenhos, passar os papéis um por um apreciando todos os pormenores e lendo as palavrinhas que se encontravam no verso e relatavam a mensagem do desenho, era maravilhoso. Ainda guardo essas cartas.
A Ana T. despertou em mim hoje a vontade de renascer este tipo de comunicação pictórico e verbal com alguém muito especial e também a vontade de fazer velas caseiras.
Acender uma vela afasta a escuridão, ilumina o espírito, acalma a mente e protege-nos das bruxas/moscas.
Desafio lançado.
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