Uma família francesa
A minha amiga Clara L. era fruto de uma família francesa. Em sua casa havia um piano. Foi através desse piano que senti pela primeira vez a suavidade das teclas a sua sonoridade. Passar as mãos pelas teclas de um piano, mesmo que seja só para tocar a escala de notas do dó ao si, é já por si só uma excelente experiência.
Foi com a Clara L. que calcei pela primeira vez uns patins de quatro rodas e consegui dar uns passinhos no pátio cimentado nas traseiras da sua casa.
Tirando essa vez, apenas me lembro de ter voltado a calçar uns patins na pista de gelo da Wonderland Lisboa. Duas horas de fila de espera para 15 minutos de patins em linha. Minutos esse em que andei muito devagarinho, sempre próxima do corrimão, sempre aguardando o minuto da queda... A queda não aconteceu, mas patinar também não aconteceu.
Com a Clara L. e através da sua avó francesa experimentei pela primeira vez sopa de lentilhas ou soupe aux lentilles, depois de muito ferver em lume brando o resultado foi uma sopa que por si só já era uma refeição completa.

Em casa da Clara L. as brincadeiras eram infinitas, de todas as brincadeiras as minhas preferidas eram as preformativas. Com um livro que nos servia de guião reproduzíamos, e criávamos peças de teatro para os adultos verem e aplaudirem. Peças de poucos ensaios, muita paródia e que me pareciam, que saíam sempre bem.
Em casa da Clara L. o pai e a mãe eram le pére et la mére. Pessoas afáveis de paciência infinita que me acolhiam com carinho e que faziam todo o gosto em me me ajudar a experimentar estímulos de outra cultura, os sabores, os sons, as canções, os aromas.
Em casa da Clara L. eu portava-me como une petit dame, até porque havia um terrorista que se encarregava de fazer o papel do mau da fita, extravasando demasiada energia, correndo agitadamente por toda a casa e tentando tocar e mexer nos objetos que lhe pareciam mais frágeis. Era um amigo da Clara L. um amigo que despertava em todos nós a irreverência e que puxava pela nossa aproximação dos limites do bom comportamento.
A Clara L. sentia-se atraída pelo risco, pela adrenalina, era audaz, focada no que gostava e queria, ignorando outras coisas que também aconteciam ao seu redor, normalmente é assim que acontece, os mais focados precisam de se concentrar e eliminam a atenção a pormenores que na sua opinião os estarão só a dispersar.
No meu estilo inquisidor e na minha veia de investigadora, todos os pormenores me interessam, sou uma curiosa por natureza de tudo o que acontece à minha volta, uma curiosa do espírito humano.
E hoje? Vou fazer soupe aux lentilles, uma sopa cheia de pormenores.
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