Meditar sem parar
Existem muitas pessoas que não conseguem estar quietas dez minutos que seja. E o facto de estarem paradas, obrigadas a uma prática que supostamente as fará ficar mais tranquilas e mais focadas, não funciona, ou até poderá funcionar com o efeito oposto.
Não funciona porque ao fim de dois segundos a mente já se focou em coisas mais importantes ou mais interessantes para fazer e aquele tempo de meditação parece perda de tempo.
Não funciona porque existe de facto um tempo em que meditamos profundamente e naturalmente e em que a nossa mente não só descansa como também se reestabelece e se recria, que é o tempo do sono.
Existem formas ativas de meditação que substituem os benefícios de uma meditação em silêncio, sossegado, concentrado apenas na respiração.
Quando meditamos aquietamos a mente, mas para aquietar a mente não é necessário aquietar o corpo. Quantas vezes sentimos essa quietude a chegar numa caminhada, numa aula de cycling ou num passeio de bicicleta, numa dança no mar ou na piscina? Estes movimentos do corpo não nos impedem a redução do stress, da ansiedade, a resolução de conflitos internos, a clarividência de soluções apaziguadoras para a nossa vida, aliás também são grandes aliados na promoção dessa soluções.

Ler um livro, ver um filme, ouvir música, escrever num caderno, agenda ou num blog, ficar sentado no sofá a ver um programa desinteressante, também são momentos de meditação. Quantas vezes ao fazer isto digerimos as nossas emoções, trabalhamos sobre elas e desatamos os nós que se prenderam?
Cozinhar, limpar arrumar, abrir janelas, tomar banho, cuidar do corpo, também são formas de meditação. Quantas vezes ao desenvolver estas ações não estamos com a "cabeça na lua" em ideias do passado, do presente, do futuro, a arrumar também o nosso interior.
Conversar com os outros, nem que seja iniciar um monólogo com um amigo paciente, ou procurar um psicólogo, também é uma forma poderosa de meditar. Conversar é trazer para fora os medos, os receios e as confusões que estão lá dentro todas emaranhadas e que, ao saírem já saem encadeadas, saem por uma certa ordem, com uma certa conotação e assumem uma nova forma de se arrumarem quando retornam novamente no nosso interior.
A meditação guiada, é uma fonte de distração, se o objetivo é ficar concentrado apenas na respiração, só o facto de se ouvir estas palavras já está a interromper o fluxo de pensamentos direcionados apenas para a respiração.
E porquê a insistência na concentração da respiração? Serve para nos focarmos nalguma coisa completamente inócua e neutra que não tem nada a ver com os pensamentos que nos desassossegam, permitindo-nos um distanciamento da situação e a relativização ou aceitação de, que os pensamentos, afinal, são apenas isso, pensamentos, que vão e vêm.
Ora, pensamentos que vão e vêm é o que nos acontece vezes sem conta, quando espontaneamente ficamos a olhar para a paisagem longe... longe ou quando estamos a executar algo mecanizado, que nos permite continuar a agir com o corpo e a meditar com a mente, como conduzir...
Meditar orientados por um professor, é semelhante à meditação guiada por uma aplicação, apenas resulta numa forma de meditar mais adequada e humanizada. Meditar por um dado período de tempo, guiados por um relógio parece contrário ao que se pretende. O que se pretende durante a meditação é reduzir o stress, meditar para tranquilizar, ora se partimos para a meditação de relógio na mão, a tentar encaixar cinco minutos em rotinas de vida apertadas, só iremos criar mais stress e ansiedade e se, nos confrontarmos com a dedução frequente de "nem sequer consegues ter cinco minutos para ti, para ficares sozinho e meditar" então a prática da meditação irá conduzir-nos ao pensamento de "quão desgraçados somos" e ao sentimento de insucesso pois "nem sequer conseguimos estar disponíveis para os nossos pensamentos durante cinco minutos por dia, quanto mais uma hora que é aquilo que os monges tibetanos fazem naturalmente". Os monges serão sem dúvida seres superiores e, nós, humildes mortais, nem cinco minutos temos para meditar.
Esta dedução é falsa. Todos nós meditamos naturalmente, em movimento ou parados, mas sem hora marcada, sem orientações, sem livros e sem relógio...
A meditação não serve para parar o fluxo de pensamentos, isso é impossível. A todos os segundos estamos a pensar em algo e é tão bom fazê-lo, tornar conscientes esses pensamentos, distinguir os que são para aproveitar e os que são simplesmente para deixar ir é o que fazemos mais inconsciente ou mais conscientemente todos os dias, a cada momento.
Há pessoas que têm tantos pensamentos que se desvanecem que até costumam apontar alguns para a eles regressarem quando conseguirem dar a oportunidade a esses pensamentos de se materializarem em ações.
Para aderirmos a um estilo de vida focado, atento a tudo o que se passa interiormente e exteriormente, para resolvermos o enovelado de pensamentos que por vezes nos parecem ser problemas, podemos meditar, mas para meditar não é preciso ficar parado!
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