A celebrar a mudança
Faz um ano que a nossa vida mudou.
Faz dois meses que a nossa vida voltou novamente à mudança inicial.
Faz um ano que ficamos fechados em casa, fechados nos nossos pensamentos. Faz um ano que restringimos os nossos movimentos ao essencial.
Depois, de uma quase nova normalidade, que durou de junho de 2020 a 15 de janeiro de 2021, voltámos a restringir os nossos movimentos e os nossos contactos de proximidade. Voltámos a ter que nos reinventarmos, o que significa, puxarmos pela nossa imaginação para continuarmos a fazer o que nos fazia sentir bem, respeitando as regras do confinamento, ou desrespeitando, sorrateiramente as regras do confinamento, ou significa ainda então puxarmos pela nossa imaginação para fazermos novas atividades, possíveis e passíveis de serem executadas em confinamento e descobrirmos novas formas de nos sentirmos bem.
Entre o fazer o mesmo de forma diferente e o fazer coisas novas, introduzimos sempre, na nossa vida, a variável: novidade, adaptação e criatividade.
Se queremos sobreviver mental e fisicamente sãos (ou minimamente sãos), então somos "obrigados" a puxar pela imaginação para nos adaptarmos a esta nova circunstância que veio impor uma mudança acelerada.
Teremos de criar novas rotinas, horários, formas de nos relacionarmos com as pessoas que partilham connosco o mesmo espaço e com as pessaos que estão fora deste espaço.
Refiro-me ao nosso espaço de segurança, o espaço que nós usamos sem máscaras, o espaço onde baixamos as nossas defesas e nos sentimos mais à vontade, ou seja, o espaço em que não precisamos de nos desviar dos outros, (até pelo contrário), ou proteger-mo-nos da respiração dos outros, (até pelo contrário,) o espaço onde tudo o que é proibido lá fora pode acontecer cá dentro. Diria que este espaço, que é a nossa casa, se tornou ainda mais o nosso templo, e ainda mais do que o nosso templo, pois a nossa casa é "onde tudo acontece".
Um ano depois, apesar de já termos testado, e bem, a nossa criatividade, ainda continuamos à espera que tudo passe, preparadíssimos para voltarmos ao que éramos e impreparadíssimos para voltarmos ao que deveríamos ser. Ansiamos por fazer exatamente o mesmo que fazíamos há um ano atrás. Altura em que éramos felizes e não sabíamos, ou seja: correr para a escola, para o comboio, estar no local de trabalho, almoçar com os colegas, ver o crepúsculo a chegar, correr para os transportes, voltar para casa, passar pela loja, sair para o ginásio, voltar para o breve jantar e cair exausto na cama para dormir, para dormir à pressa, pois até na hora de ir dormir já estávamos atrasados. Sempre freneticamente a correr, sempre com a sensação dos minutos a pressionarem-nos, escravos do relógio e dos horários.
Um ano depois se nos dessem as mesmas condições de há um ano atrás, iríamos, muitos de nós, de bom grado e até com um sorriso, regressar às loucas rotinas do pré-confinamento.
Não quero dizer que não tenhamos criado novas loucas rotinas no confinamento (eu criei) rotinas exigentes, por vezes frustrantes, rotinas que nos recriam a cada novo dia, na tentativa de manter a tal sanidade (física e mental) e sentir que os dias não se sucedem exatamente uns iguais aos outros.
Um ano depois, se nos dessem a hipótese de voltar "ao normal" do pré-confinamento, suponho que uma ou ambas as situações poderiam ocorrer: ou euforicamente começaríamos a abraçar estranhos e retornar todos os velhos hábitos, ou faríamos uma pequena "birra" e diríamos: Assim? De repente? Agora? Eu ainda não me sinto preparado para sair, ainda não sei como o fazer, ainda não pensei de que forma quero regressar! E se encontro o papão lá fora?

Pois é... nunca estamos preparados para a mudança. Não estávamos preparados para esta mudança e ela aconteceu!
Estou convicta que a mudança pós-confinamento, caso não seja planeada, pensada e até imposta, como esta, não irá acontecer!
E o movimento, será progressivamente ir-mo-nos aproximando do modelo anterior, retirando pouco ou nenhum benefício destas aprendizagens forçadas, até que deste tempo ficará apenas uma ténue memória, fotos de máscaras e séries do género "conta-me como foi"!
Gostaria de acreditar na transformação da humanidade, sei que começa em nós, mas sei que começa principalmente em quem tem o poder de decidir o nosso destino e não vejo essas pessoas preocupadas em formularem planos de mudança, antes pelo contrário.
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