A realidade é interdependente
Ou seja a forma como eu me sinto reflete-se na minha realidade e a realidade que me envolve reflete-se em mim. É inevitável e indissociável.
Assim sendo, o foco da nossa aprendizagem não deveria ser o atingir máximo da autonomia e da independência, mas sim o atingir máximo da consciência de mim enquanto ser interdependente.
O foco não deveria ser: num trabalho de grupo cada um faz a sua parte, ou num trabalho fabril, cada um tem as suas tarefas específicas, ou no seu lar, cada um sabe o que fazer e cada um representa o seu papel da forma mais constante possível, para não criar muita agitação. O foco mantém-se no individualismo, na separação por bolhas de conforto e na manutenção de um estado que mal ou bem mantém tudo confortavelmente insatisfatório. Mas na nossa bolha, no nosso individualismo conseguimos aguentar essa insatisfação vários anos, sem descobrir ou vislumbrar sequer o que é a vida fora do nosso eu e da nossa bolha.

Atualmente vivemos uma situação de pandemia que nos "desculpa" ou justifica o facto de estarmos ainda mais fechados na nossa bolha e não nos encontrarmos com os outros, não podermos fazer muita coisa pelos outros, sobretudo coisas que impliquem o contacto ou a proximidade física.
A interdependência está reduzida e confinada ao uso da tecnologia. A tecnologia que nos aproxima, mantém-nos distantes e não transmite adequadamente sentimentos, emoções, sensações, experiências. Cria a ilusão de termos visitado um museu através de uma visita guiada ou uma visita 360º virtual mas de facto não nos faz sentir como se lá tivéssemos ido e a memória dessa experiência irá dissipar-se a uma velocidade estonteante. para a semana já só teremos um leve vislumbre de como era o salão nobre de determinado palácio.
Ter consciência da interdependência entre nós e os outros seres e a natureza é uma forma de entender o mundo evolutiva, adaptativa e criadora de novas e sinergias.
Trabalhar ao serviço do bem comum requer coragem e ousadia. Mas ninguém disse que mudar é manter-se na zona de conforto ou dentro da sua bolha de segurança. Mudar é estar disposto a viver noutro país, a aprender outra língua, aprender outro estilo de gestão, a desenvolver novas formas de pensamento; mudar é estar recetivo para dialogar sobre as relações, pontos de acordo e pontos de conflito, estabelecer acordos claros e alinhar continuamente expectativas e capacidades individuais, ser consciente dos limites e humildemente pedir ajuda para os ultrapassar.
Eu não sou o senhor todo poderoso, autónomo e independente!
O desafio é “esvaziar a xícara”!
Para conhecermos e experimentarmos outros sabores e saberes, temos de nos libertar ou livrar de velhos padrões e crenças.
Para que novas aprendizagens ocorram devemos estar motivados para saber criar relações, mais do que para saber viver isolado. Contudo, boas notícias... esse movimento inicia-se com o autoconhecimento e com a coragem de se reinventar internamente (daí este tempo de reflexão estar a ser importantíssimo, saibamos nós tirar proveito dele e sair da pupa como borboletas capazes de pautar a nossa vida não pelo conceito de ser minhoca - apenas tenho de comer tudo o que vejo e ser autónoma e independente e passar a ser a borboleta que fecunda as flores pousando e levando o pólen nas suas asas e patinhas, que deixa os seus ovos, permitindo que uma nova geração de borboletas nasça e mantenha os campos floridos e cheios de lindas borboletas).
Se não mudarmos, estaremos apenas desejando mudanças e, ao mesmo tempo, mantendo o que já existe. E isto é dissonante, irá conduzir rapidamente nós e os outros à loucura!
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