E, quando meditar não relaxa?
Quando somos completamente prisioneiros de relógios, desde o biológico (inseparável), aos de pulso (fora de moda), aos que se espalham pelos locais onde estamos (forno, microondas, mesa de cabeceira, meios de transporte), aos tecnológicos (telemóvel, computador, televisão, rádio), quando somos completamente mergulhados em tempo, com prazos para cumprir, com horários para regular, como fazer para meditar?
Quando contamos os segundos, quando no minuto presente estamos a pensar no que vamos fazer no minuto seguinte e a pensar no que ainda não fizemos e no que temos para fazer mas não nos apetece. Como conseguiremos parar para meditar?
Quando sufocamos o nosso ser, em regras e rotinas medidas pelas escassas horas do dia, quando tudo isto acontece, até meditar se encaixará perfeitamente na rotina, no tempo e se tornará em mais um momento, mais um grão de areia na nossa ampulheta do tempo. Será que vamos conseguir colocar mais esse grão no nosso dia?

Quando se parte para uma meditação, de pelo menos 10 minutos, ou de 5 minutos em posições diferentes, ou uma meditação guiada (bom para começar mas demasiado intrusiva quando se pretende mesmo RELAXAR). Quando se medita com presa de terminar, esperando que faça efeitos rápidos, pois não temos tempo a perder... então, meditar não está a produzir o efeito desejado.
Se meditar é mais uma coisa que se faz ou se é um esforço como é que irá resultar?
Não será o grande objetivo da meditação serenar, como quem consegue acalmar a ondulação agitada do seu mar interior?
Meditar não será conseguir ouvir o silêncio? Concentrarmo-nos na respiração, ou em algo completamente elementar e básico, desprovido de juízos de valor, algo que não se relacione com o passado ou com o futuro, que simplesmente esteja a acontecer neste momento, no presente?
Meditar não será conseguir sentir com intensidade máxima o presente? E conseguindo sentir o presente alcançar um estado de graça?
E quando não é? Valerá a pena insistir?
Hoje não consegui atingir o nirvana. Amanhã voltarei a meditar...
Quantas vezes devemos fazê-lo? E se nunca lá chegarmos? Meditar aumentará a nossa frustração, para além de aumentar a nossa preocupação com o tempo que se usou a meditar em vez de dormir, trabalhar, falar com a família ou com os amigos...
Para que serve então meditar? Para ocupar ainda mais a nossa mente? Ou para a esvaziar?
Meditar pretende ser uma atividade libertadora, relaxante, potenciadora de uma maior consciência de quem somos, potenciadora de uma maior conexão com o nosso interior.
Meditar pode ser um tratamento e uma cura, um apaziguar de emoções, um respeito por si próprio, o alcançar de uma auto-estima mais adequada e o atingir de um estádio adaptativo em relação a nós, aos outros e ao ambiente mais funcional, mais adequado.
Meditar é algo que se desenvolve em nós e se expande para fora de nós.
Mas deveremos obrigar-nos a meditar? A encontrar tempo, no nosso apertado dia, para meditar? A acrescentar a todas as coisas que nos propomos, e com as quais nos ocupamos e (pre)ocupamos, também meditar?
Até quando vamos conseguir esticar a corda? E até quando aguentaremos a frustração de procurarmos fazer tudo e não estarmos realmente a fazer nada?
Se não estivermos presentes no nosso presente, não estaremos a fazer nada bem, não estaremos a revelar todo o nosso potencial, a ir até locais (interiores e exteriores) desconhecidos de nós próprios. A surpreender-mo-nos com as nossa capacidades, a ir onde nunca imaginamos que conseguiríamos chegar. A fazer com gosto, com prazer e a viver com gosto e com prazer.
Se, conseguirmos, gloriosamente, desmultiplicar a nossa atenção por mil e uma tarefas, dar atenção a quinhentos mil assuntos, ao mesmo tempo, estaremos a ser super-humanos, ou infra-humanos?
Estaremos a arredar o sentido da ação e a executar como máquinas, sem fazer uso daquilo que as máquinas não usam, nem precisam: a capacidade de se emocionarem, de sentirem.
Estaremos a ficar cada vez mais eficazes e menos funcionais.
Meditar não deve, de todo, ser MAIS UMA COISA, se assim for, mais vale nem começar. Ou deverei tomar a meditação como quem toma um comprimido?
Se respirar é algo de natural, porque é que meditar também não é algo natural? Será que meditar só acontece quando paramos? Será que meditar só acontece ao fim de dez minutos, ou mais, a pensar na respiração, ou meditar só acontece quando conseguirmos esvaziar a mente e deixamos de pensar no passado e no futuro?
Meditar é algo tão natural como respirar.
Sem complicar, sem ritualizar, sem acrescentar, meditar deverá ser para cada um de nós aquela forma muito própria muito nossa de cuidar de nós, ALGO que nos faz sentir bem... poderá ser qualquer coisa, devendo essa qualquer coisa estar no topo das nossa prioridades diárias.
Boas meditações.
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