O mundo ao contrário

É letra de uma canção dos Xutos e Pontapés, que no refrão diz:


"Se gosto de ti
Se gostas de mim
Se isto não chega
Tens o mundo ao contrário"

 

Partindo da premissa do amor, se não será suficiente para que a vida aconteça, então temos o mundo ao contrário!

 

Provavelmente vivemos num mundo ao contrário a maior parte do nosso tempo e, quando nos questionam, quando nos pedem, ou quando a vida nos solicita outra forma de fazer e pensar, então temos a sensação de sairmos dos nossos limites, de usarmos o pensamento divergente, a sensação de questionarmos os nossos valores e ideias para colocarmos o mundo ao contrário, mas na realidade é nessa a altura, por breves momentos, que acertamos o mundo.

 

Ver o mundo ao contrário, pensar o mundo ao contrário, por vezes é a forma mais correta de ver e pensar, é a forma que nos permite o movimento.

 

É um exercício poderosíssimo este de virar tudo ao contrário.

 

Exemplo: numa publicação anterior, comparava as emoções a um leão e o raciocínio a um domador.

No meu espírito esta comparação fez todo o sentido. As emoções são mais instintivas, animais, parecem domadas a maior parte do tempo, mas são inesperadas e muito permeáveis a um sistema de recompensa e punição.

O raciocínio, é o domador, que se julga superior, e que de chicote e bife nas mãos gere os instintos animais, julgando-se competente para fazer isso, mantendo a sua posição de liderança e de distância do animal. O domador, pensa domar as emoções, a maior parte do tempo.

 

Tudo se encaixa, tudo faz sentido, pelo menos para mim nesta metáfora. Por isso quando me é pedido para colocar o mundo ao contrário, pensar que afinal o domador representa as nossas emoções e o leão a nossa razão, a reação inicial é: "não faz sentido", "não me parece possível". É muito dissonante.

 

Mas é precisamente para isso que este exercício serve para nos questionar, para nos retirar do conforto do sentido encontrado e levar a encontrar outros sentidos. Este exercício serve para nos desinquietar e desconfortar.

 


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Vamos lá ver até onde conseguimos virar ao contrário o pensamento inicial.

Se o domador são as nossas emoções, de chicote e bife na mão, presumidas e convencidas que lideram então essas emoções aprenderam a respeitar o leão racional, a fera indomável que nos assusta mas à qual não podemos mostrar medo.

Se o leão for o nosso raciocínio e se o leão for muito feroz, muito provavelmente, as emoções, simples domadores, mais pequenas, mas munidas de mais estratégias, terão um trabalho enorme para se conseguirem manifestar, terão de superar os seus medos, terão de se mostrar carinhosas, terão de conquistar através do uso de recompensas a razão, terão de iludir a razão para se manifestarem e conseguirem expressar o seu número de circo.

 

Na sua performance as emoções usam a razão para se expressarem. A razão é forte e pouco colaborante. As emoções têm um trabalho árduo pela frente, um trabalho diário de conquistar a confiança de "convencer" a razão a atuar de determinada maneira, de acordo com aquilo que as emoções pretendem. 

 

Ainda assim, apesar do brilho da roupa do domador, dos adereços usados para embelezarem e oferecerem impacto ao espetáculo, a fera da razão comporta-se como um animal, ruge, parece estar sempre a fazer um frete. Não sente as emoções da emoção, do domador, faz o que tem a fazer e não se conecta emocionalmente com o domador. Mantém-se altamente racional, altamente individual, aguardando a recompensa e evitando a punição. Muito simples.

 

O domador, usa todos os artifícios e mais alguns, usa inclusive o olhar carinhoso, o gesto amigo, o toque afetuoso, o domador consegue amar o leão. O leão desenvolverá algum afeto pelo domador?

 

Quero acreditar que sim, na sua rudeza, o leão consegue sentir afeto e nesses momentos permite ser domado e permite a expressão do número de circo, comportando-se como as emoções lhe pedem, fazendo o que a emoção imaginou.

 

E é assim que o racional se conecta com o emocional, é assumindo que existe e deixando acontecer, o afeto.  O afeto que a fera tem pelo seu domador, pelas suas emoções. Quando esta conexão se dá torna-se mais fácil a expressão das emoções e corre melhor o número de circo. Ambos domador e leão estão preparados para o espetáculo.

 

E assim, colocando o mundo ao contrário, ficamos com o mundo na posição de outro entendimento, que nos permite uma solução para as nossas vidas: permitir racionalmente amar o que sentimos.

 


 

Apesar de ter parecido difícil, ao inicio, este exercício, pois tudo o que nunca fizemos ou experimentamos nos parece difícil e facilmente acionamos a tecla, "medo do insucesso", como se fosse a tecla "esc" do nosso computador e facilmente queremos sair ou evitar ir por ali. Quando nos atrevemos a ir, mesmo que timidamente ou cuidadosamente, vamos descobrindo caminhos ainda não explorados, ideias ainda não concebidas que nos conduzem a outro entendimento a outra dimensão da nossa vida. Ideias que abrem horizontes, alargam entendimentos e permitem receber e entender os estímulos exteriores e interiores de formas nunca antes experimentadas.

 

Isto é desenvolvimento.

 

 

 

 

 

 

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