A volta ao medo em 80 dias

de José Jorge Letria.


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O romance conta a vida de Gustavo Resende, nascido por volta de 1959, que no tempo da guerra ultramarina, que durou 13 anos, ainda era macebo e por isso estava fora do perigo de ter de se alistar na tropa e ir para a guerra. Mas a idade aproximava-se e a possibilidade de ele ter de ir era iminente, não fosse a revolução do 25 de abril de 1974, provavelmente teria morrido, sem dignidade, numa trincheira qualquer.


O medo tolheu, durante toda a vida os movimentos deste homem, que por medo deixou de fazer o que amava e deixou de amar o que fazia. Apenas vivia, um dia atrás do outro, sem grandes ambições. Os seus gostos resumiam-se ao que comia, bebia e fumava. Até que um enfarte do miocárdio o ameaça de lhe tirar a vida, que ele já não tinha... desperta-o para a possibilidade de ainda viver, sem medo.


 Encontra uma Margarida na sua vida, flor, colega, professora e poetisa que escreveu o poema com o nome da obra, o qual transcrevo aqui:


"Cheguei com atraso à poesia"


Cheguei com atraso à poesia.


Perdi comboios, navios, aviões,


fiquei sentada em gares e cais


à espera da partida seguinte.


Ouvi os gritos, as sirenes, os apitos


mas nunca entrei a bordo na hora certa.


Mas a poesia quis esperar por mim


generosa e doce como uma mãe antiga


Por isso lhe devo esta oferenda,


a dádiva grata desta entrega


em que fica de mim tudo


o que de mais intenso tenho para lhe dar.


Salto para o estribo de poema,


entro na carruagem em movimento,


cumprimento as sombras e as estrelas


e só acordo quando o medo me liberta."


***


Hoje sonhei que me tinham oferecido uma viagem de um dia a Paris, seria para ir num dia, num avião pelas 11h da manhã e regressar no outro dia pela mesma hora. Estava tudo, um pouco mal preparado, mas parecia ter o essencial para uma viagem de um dia. A senhora do check in descobriu qualquer irregularidade no meu bilhete e não me deixou entrar naquele voo. Disse-me que iria tentar que eu embarcasse ainda hoje, noutro avião. Voltei para casa, almocei e depois de almoço, mais determinada a ir a Paris ainda nessa tarde regressei ao aeroporto para influenciar o meu encaminhamento para um voo o mais cedo possível, na tarde... afinal dentro de duas horas estaria a aterrar em Paris. A senhora do check in informou que poderia ir no voo da meia noite com os tripulantes do avião, esse voo só levaria 15 passageiros.


E eu, ainda estava a pensar em aceitar, mas depois, depois, imaginei-me a chegar a Paris, à meia noite, sem ninguém conhecido, e ter de regressar no outro dia no avião das 11h da manhã, sabendo que teria de estar no aeroporto pelas 09h30m... que tempo estaria eu em Paris? E sozinha? Seria um desperdício de recursos... desisti da viagem e só quando acordei é que me lembrei que nem voltei ao local do check in a solicitar a troca daquele bilhete para outro dia.


O medo que nos tolhe. O medo que nos encolhe e nos diminui e nos prende a uma vida tão pequenina, a nossa vida, que de horizontes tão estreitos e apertados, sem conseguirmos vislumbrar mais além. Na nossa vida mantemos o mais além no desconhecido e julga-mo-nos felizes, aqui neste buraquinho, protegidos de todos os nosso medos, os medos que nos tapam como cobertor quentinho.


Atrevam-se a sair da volta do vosso medo!


 


 

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